CONCEITO DE MANIPULAÇÃO

30 Nov

MANIPULAÇÃO

copilado de http://eumatil.vilabol.uol.com.br/manipulacao.htm

O   pólo negativo da “conscientização” é a manipulação. A pessoa é “sujeito” e deve ser tratada como “sujeito”. Mas a pessoa pode ser convertida e tratada como “objeto”. Este é um dos maiores riscos que corre.

Apresentamos aqui uma reflexão sobre o fato da manipulação humana. Embora o tema não tenha ainda encontrado esquemas claros de desenvolvimento, não podemos deixar de traduzir numa linguagem de reflexão as pré-compreensões que o homem de hoje tem com relação ao fenômeno humano da manipulação.

Deixaremos de tratar os aspectos morais da manipulação no campo da biologia humana, por exemplo. Fixar-nos-emos no fenômeno global da manipulação.

A realidade da manipulação não foi ainda submetida a uma reflexão sistematizada. Rahner constata o fato sintomático de que este termo não entrou nos dicionários das ciências políticas e sociais.

Procurando esclarecer conceitualmente a realidade da manipulação humana, faremos em seguida um conjunto de aproximações parciais. Para isso, teremos em conta as contribuições dos autores que nos últimos anos refletiram sobre essa realidade.

1. Conceito de manipulação

a) O uso do termo “manipulação”

A expressão manipulação “do homem” é ambígua e imprecisa. Trata-se de uma palavra tópica, com todas as características que isso comporta: imprecisão, carga emotiva, qualidade sugestiva mais que esclarecedora etc. O uso que dela é feito nos fala de um espectro grande de significados, que vão desde o campo das ciências naturais ao da critica social, para terminar no âmbito da pura polêmica.

Os diversos empregos que se costumam fazer do termo “manipulação” dependem dos seguintes fatores e interesses:

a) Um primeiro fator de diversificação nos é proporcionado pela variedade de campos em que foi e é empregada: na práxis médico-cirúrgica, nas experiências físicas e químicas, no influxo bioquímico sobre os genes, na experimentação sociológica científica (manipulação das variáveis dadas – pesquisas eleitorais ou de opinião, por exemplo), na crítica social etc. Esta primeira constatação fala-nos de um deslize do uso do conceito manipulação do campo das ciências naturais para o da crítica social a terminar no âmbito da pura polêmica.

b) Dentro do âmbito da crítica social, o conceito de manipulação tem fronteiras pouco definidas. Com efeito, no plano descritivo se situa freqüentemente em equivalência a retórica, arte de persuadir ou doutrinar, inabilitação, repressão, de-sublimação, tudo isso para o âmbito de conseqüências referidas às pessoas; e com a publicidade, a propaganda, a unificação, a exploração ou a demagogia, para o âmbito das conseqüências preferentemente relativas à sociedade. Como demonstra esta lista, certamente não completa, de conceitos estreitamente aproximados e não claramente delimitados entre si, o conceito de manipulação abarca praticamente todo o conjunto de técnicas de influência social -  excluída unicamente a utilização da força bruta -, sem nos permitir reconhecer uma diferença específica entre os conceitos apontados, e que torna indispensável para uma definição válida.

b) Sentido etimológico

A partir do estudo do tema nas obras clássicas de Forcellini e Du Cange e nos dicionários etimológicos das línguas modernas, Ferrero chega às seguintes conclusões sobre a acepção etimológica da manipulação: “O termo ‘manipulação’ e seus derivados provêm em todas as línguas ocidentais (alemão, espanhol, francês, inglês, italiano e português), do latim manipulus, manipulare, manipulatio, manipulator, compostos por sua vez das raízes latinas manus (mão) e pleo (encher). Por isso seu significado original está relacionado com a idéia daquilo que se leva na mão ou do que pode ser contido na mão. Era a própria idéia de manipulus no latim decadente falando de ervas, flores, sementes, substâncias químicas ou metálicas etc., sobretudo com relação à alquimia, à farmácia, à arte, à ourivesaria ou à cerâmica, até converter-se em medida. A ação correspondente, manipulare, manipulatio, se referia, paralelamente, à ação e à arte de combinar ou manejar esses elementos para obter um resultado especial, distinto do que se podia esperar deles abandonados a si mesmos. Daqui a idéia de tratamento, elaboração, manejo e transformação que o homem fazia com suas próprias mãos do corpo humano (medicina e cirurgia), dos produtos químicos (química e farmácia), das terras e metais (arte, cerâmica e ourivesaria). É o colorido que ainda conserva quando se trata do significado metafórico: um tratamento e manejo dos materiais manipulados e de suas possibilidades para se obter um resultado concreto partindo de uma alteração da natureza ou modo de ser desses elementos, aproveitando suas propriedades, suas qualidades, as energias, as leis intrínsecas de cada um. O manipulador, no sentido etimológico, obtém resultados maravilhosamente distintos daqueles que são próprios dos ingredientes naturais, mas sem os alterar previamente. Por isso se supõe nele um conhecimento, uma ciência e uma arte das propriedades e das leis a esses elementos sujeitos, sendo tudo isso desconhecido, secreto a todos aqueles que de qualquer modo estão ou possam estar interessados pelo resultado da manipulação. Esta ciência e este segredo são a base da ganância, do prestígio e da eficácia da manipulação.

c) Definição conceitual

Procurando definir o conceito de manipulação, temos que distingui-lo e não confundi-lo com outros conceitos bastante parecidos. A manipulação humana, tal como aqui é entendida não se identifica com:

- violação aberta e deslavada da liberdade do homem (desde a escravidão propriamente dita até as novas formas de servidão do homem);

- violências físicas ou morais infligidas sobre outras pessoas, que as padecem e agüentam, porque não podem desfazer-se delas (por exemplo, injustiças no mundo do trabalho, opressão no setor político, prática de tortura para arrancar confissões, dinheiro etc.);

- formas de desumanização, realizadas pelo próprio sujeito que as padece ou por outro agente alheio a ele.

A manipulação é a violação da liberdade, é uma violência e é uma forma de desumanização. Mas nem toda desumanização, nem toda violência, nem toda a violação da liberdade devem ser entendidas como ações manipuladoras.

O conceito de manipulação traz consigo uma nota específica que o qualifica enquanto tal: a ausência ou supressão de toda dimensão crítica por parte do manipulado, e a aceitação de tal acriticidade por parte do manipulador.

Manipulação não significa uma simples influência ou exercício de poder como tais, mas uma forma toda especifica, irracional de exercer a influência e o poder. É o exercício do poder sem legitimação, sem autoridade. A manipulação descarta tudo o que é raciocínio crítico do interessado. O homem não percebe o ataque como não percebe uma combinação química. Os estímulos da manipulação são percebidos de forma inconsciente; por meio dum arranjo feito habilmente, permanecem ocultos à consciência. Criam assim uma falsa consciência, e, a partir dela, a vítima das práticas da manipulação crê falsamente que tomou uma decisão racional. Aproveitando-se da forma irresponsável de uma disposição fundamental do homem, de sua natureza social, paralizando assim sua capacidade de objetivação e de distanciamento, sua liberdade, a manipulação deve ser considerada de fato como a mais desumana que todas as outras formas de violência ou de opressão.

Para Böckle é também a ausência de criticidade no manipulado a nota específica do conceito de manipulação. “Tomada em seu sentido mais amplo, a palavra “manipulação” significa hoje algo assim como “preparação do homem”, o que designa uma influência exercida seletiva e certeiramente sobre processos de desenvolvimento tanto individuais como sociais, sem que os atingidos de fato possam entrever suficientemente nem o processo em si mesmo nem os objetivos e métodos da persuasão a que são submetidos. Nesta condição precisamente se põe toda a ênfase já que nem a persuasão inter-humana, nem a intervenção nos processos vitais são, em princípio, algo novo. O problema da manipulação repousa na falta de transparência para os atingidos”.

2. Formas da manipulação (âmbitos da manipulação humana)

O homem é um ser manipulável. Não é de estranhar, portanto que existam muitos campos de manipulação. Em qualquer lugar onde o homem se realiza podemos encontrar um campo possível para a manipulação.

Pode-se fazer diversas classificações das formas de manipulação. Consignamos em seguida duas: uma classificação sistemática e outra descritiva-concreta.

a) Tipologia sistemática

Fazendo uma consideração sistemática do homem e da manipulação, pode-se chegar como o fez Ferrero, à seguinte classificação:

- Em razão do sujeito manipulador: manipulação individual ou institucionalizada, conforme se trate de um indivíduo ou de uma instituição (sociedade, cultura, grupo social, nação, partido, associação) que procura manipular a liberdade dos demais;

- Em razão do sujeito manipulado: manipulação pessoal, social ou ambiental, conforme se procure controlar a liberdade a partir da pessoa, do grupo social, ou do meio ambiente em que vive. Por sua vez, a manipulação pessoal pode ser: somática (ou psicossomática) e psicológica, conforme se realize a partir do corpo ou por meios psicológicos que atuam diretamente sobre o espírito;

- Em razão do modo como se realiza: manipulação mediata ou imediata, consciente ou inconsciente, vulgar ou científica;

- Em razão dos efeitos que vai produzir na pessoa ou no grupo manipulados: manipulação inócua (sem outros efeitos que a manipulação da liberdade e a consecução dos fins a que se havia proposto o manipulador), perfectiva (corrige ou melhora o modo de ser do sujeito manipulado, proporcionando-lhe, conforme a estimativa social estabelecida, um benefício, embora não seja isso o que diretamente busca o manipulador) ou prejudicial (se, além de manipular sua liberdade, causa-lhe outros danos).

- Em razão do fim a que se propõe o manipulador: manipulação necessária (nasce do contexto sócio-cultural no qual vive o manipulador e o sujeito manipulado), útil (procura melhorar a situação do sujeito manipulado ou a de ambos), terapêutica (procura curar de alguma maneira o sujeito manipulado, enfermo ou incapaz de guiar-se normalmente por si mesmo no uso de sua liberdade), experimental (quer experimentar práticas ou medicamentos que podem se tornar benéficos para o sujeito manipulado ou para toda a humanidade), egoísta (quando somente procura a utilidade do sujeito manipulador sem levar em conta a pessoa dos outros);

- Em razão dos meios empregados para a manipulação: manipulação somática, psicológica, social ou cultural conforme se tenha em vista as leis e condicionamentos que podem influir sobre a liberdade a partir do corpo (medicamentos, operações, transplantes, drogas etc.), a partir do espírito (métodos sicológicos e parapsicológicos em toda a sua amplitude) ou do meio sócio-cultural (educação, meios de comunicação social – mídia -, grupo, família, ideologia, utopias etc.).

b) Classificação descritiva-concreta

Mais interessante que uma tipologia sistemática da manipulação é uma exposição descritiva das principais formas manipuladoras do homem atual. Aqui vão algumas delas:

- manipulação da biosfera na qual vive o homem: contaminação do ambiente, sobretudo do ar e das águas (manipulação macro-ecológica); desumanização das cidades (manipulação micro-ecológica);

- manipulação da cultura e da arte: instrumentalização e comercialização da arte (por exemplo: o cinema, a televisão etc.); educação utilitária, para uma ordem estabelecida… É por isso mesmo que se postula hoje uma cultura e uma educação libertadoras;

- manipulação através dos meios de comunicação social (MCM = Meios de Comunicação de Massa): é a existência desses meios a que explica e possibilita, em grande parte, todas as outras formas de manipulação. É esse um aspecto muito desenvolvido na crítica social atual;

- manipulação publicitária, servindo-se fundamentalmente dos instintos humanos de agressividade, sexualidade, poderio etc.;

- manipulação social em suas várias fontes: econômica, política e ideológica;

- manipulação da opinião pública;

- manipulação da racionalidade do agir humano (manipulação e cibernética);

- manipulação no plano religioso (seitas, mistificações das crenças e crendices, superstições, astrologia, horóscopos, simpatias, devoções e outros “ópios”…)

Todas essas formas de manipulação podem ser resumidas numa só: a tentativa de modificar interresseiramente o próprio homem. Tal modificação pode ser entendida como uma “autoprogramação” do futuro ou como uma influência irracional e acrítica, por parte de quem a padece de modo a configurar um tipo de homem que melhor se acomode a outros fins. O primeiro aspecto aparece fortemente nas “pesquisas” e experimentações biológicas. O segundo aspecto aparece mais claramente no campo da ação social do homem.

3. A manipulação social: forma privilegiada das manipulações atuais

Acabamos de assinalar que as formas de manipulação se unificam na elaboração de um “tipo de homem” que melhor se acomode aos fins que o manipulador persegue. Com isso afirmamos também que a forma privilegiada de manipulação é a de caráter social. A “unidimensionalidade” socialmente manipulada vem a ser o núcleo originário de todas as forças manipuladoras do homem atual.

A manipulação social pode ser verificada de um modo concreto nas manifestações da vida social atual. Constata-se o  poder da manipulação nos diversos níveis da realidade social: na publicidade, na opinião pública, na elaboração e na força das ideologias, nos sistemas educativos, no exercício da autoridade, no comportamento permissivo da vida social atual, na programação econômica, nas técnicas de pesquisas, nas realizações de diferentes grupos humanos etc. Um discernimento sobre estas formas de manipulação conduz-nos à conclusão de que a “manipulação constitui um fato não exclusivo, mas sim típico das sociedades industriais avançadas” (Merks).

Cremos que o problema deva ser apresentado em um nível ainda mais profundo. A manipulação aparece nas manifestações da vida social precisamente porque a estrutura social atual tem uma configuração manipuladora. É justamente esta estrutura social que desencadeia todo o processo manipulador: a) cria “aquele que manipula” dando origem a homens, grupos ou sistemas que necessariamente originam o “manipulado” ao tornar fácil a existência de homens ou grupos de homens que crêem atuar por sua própria conta embora de fato estejam sendo programados (telespectadores, leitores de jornais, assembléia de sindicatos etc.); b) cria o “manipular” enquanto operação calculada para transmitir uma mensagem determinada a um receptor humano a fim de que a viva como sua (o “input” ou entrada desencadeará um “output” ou saída sem “ruídos” vivenciais).

Para descobrir a força manipuladora do sistema seria necessário realizar uma análise da estrutura configuradora da sociedade atual. Indicamos as pistas por onde se deve canalizar a tal análise:

* A cultura tecnológica e sua incidência na sociedade estruturalmente manipuladora.

A tecnologização de nossa sociedade e de nossa cultura é um fato. O diferenciador e específico da revolução tecnológica com respeito a outras revoluções anteriores (a neolítica, a industrial etc.) é que está passando a barreira da até agora inabordável intimidade do homem, cuja originalidade e liberdade pareciam estar resguardadas, muito além da influência da tecnologia. Mas o problema não está na tecnologização; esta por si só não leva a uma manipulação humana. O fantasma da manipulação aparece pelo fato de que nem todos os grupos têm a mesma possibilidade de apropriar-se das conquistas tecnológicas. Só as novas classes detentoras do poder econômico, social, político e cultural são as que realmente se apropriam das novas conquistas dos homens e dos povos, que tornaram possível a atual tecnologia mediadora, e conseqüentemente expropriando-os de si mesmos. A intervenção das classes detentoras do poder é que introduz o mal da manipulação dentro da sociedade tecnológica. Como afirma Belda, “do ponto de vista sociológico, a manipulação supõe um modelo de sociedade elitista e autoritária baseada na desigualdade radical. Este modelo pode-se concretizar em formas muito diversificadas que vão desde uma sociedade descaradamente fascista a uma sociedade industrial avançada formalmente democrática…

O dinamismo da manipulação requer estes três suportes, para funcionar: a) desigualdade social institucionalizada; b) relações sociais fundadas no domínio de uma minoria sobre a maioria; c) manejo da consciência individual, graças aos serviços das instituições educativas e dos meios de comunicação de massas. Diante dessa manipulação estrutural só é possível a alternativa de uma reestruturação social na qual, partindo de uma verdadeira democratização, se consiga “despojar” as novas classes do poder de suas injustas apropriações exploradoras e manipuladoras para devolvê-las ao homem e aos povos.

* A unidimensionalidade da sociedade como origem da manipulação humana estrutural.

A escola de Frankfurt coloca a manipulação na eliminação da capacidade do homem para desenvolver a função crítica de sua razão e a função utópica do sentido da totalidade. Marcuse concretizou esta afirmação geral assinalando que a manipulação humana surge quando se reduz o homem à “unidimensionalidade”. Tal “unidimensionalidade” ele a descobre nas sociedades industriais avançadas, dentro das quais “a cultura, a política e a economia se unem num sistema onipresente que devora ou rechaça todas as alternativas. A produtividade e o crescimento potencial desse sistema estabilizam a sociedade e contêm o progresso técnico dentro do limite da cominação. A razão tecnológica tornou-se política” (H. MARCUSE, O homem unidimensional).

Nas sociedades industriais avançadas poder-se-ia propiciar o reino das liberdades contanto que se desse fim à racionalidade tecnológica. Somente fazendo desaparecer a “unidimensionalidade” se poderá conseguir a libertação e, portanto, a eliminação da manipulação humana.

* A “sociedade rica” e sua manipulação através do consumismo.

A sociedade está projetada e se expande dentro de uma civilização dominada pela lei “do consumo”. A industrialização do passado, o urbanismo e a massificação de ontem e o tecnicismo de hoje desembocam necessariamente numa “sociedade opulenta” e de consumo. Esta situação é a origem da manipulação estrutural que acompanha a sociedade atual.

 

 

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